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Sex Shop ainda é tabu em João Pessoa0

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Segunda-feira após um prolongado feriado. A manhã começou com um pouco de chuva, normal para o período do ano, mas como era de se esperar o sol deu as caras antes das nove horas. Um dia tranqüilo começa em uma das avenidas calmas de João Pessoa, João Machado. O movimento na loja começa cedo, para quem não está acostumado com o fluxo diário no local, até surpreende tamanho movimento.

Na altura do número 900, encontramos o Sex Shop mais antigo de João Pessoa, que já existe há dez anos, antes em outro endereço. Um local discreto, que tem como identificação apenas a placa na frente da loja. Ao lado da porta, três avisos. Um informa o horário de funcionamento, os outros dois referem-se à legislação que proíbe a entrada de menores, sob qualquer pretexto, no local.

Se a porta, que costuma permanecer fechada por uma questão de segurança, estiver aberta, basta empurrar e entrar. Se for a sua primeira vez, pode até ficar confuso. Um sino dos ventos pendurado à porta faz um barulho característico de lojas que vendem produtos esotéricos. À esquerda, um inocente cesto de madeira dispõe vários tipos de incensos que perfumam o ambiente.

Mas em poucos instantes, após um rápido passeio pelo ambiente, percebe-se que se trata de um lugar cuja atmosfera respira erotismo e sensualidade. Os objetos expostos, como em qualquer outra loja, possuem, sem dúvida, um diferencial pra lá de excitante.

O local – A Free Sex é especializada em artigos eróticos, fitas de vídeo, revistas eróticas. Possui também cabines individuais para exibição de filmes. Para locação, seu acervo é considerado o maior da cidade no gênero, mais de três mil títulos à disposição dos seus clientes. O atendimento é simpático e prestativo, como convém à um local onde as pessoas costumam ficar um pouco tímidas e inibidas, em uma primeira visita.

Júnior, estudante de Biologia, trabalha no local há três anos e domina inteiramente aquele universo. Ele conta que a loja ficava antes em um pequeno centro comercial na avenida Pedro II, mas que o local apresentava um grande fluxo de pessoas, por causa das outras lojas que haviam no local. Esse trânsito inibia e envergonhava alguns clientes da Free Shop, e por isso a mudança para um local mais discreto.

Enquanto conversa, o simpático vendedor, que muitas vezes é transformado em cúmplice, confidente e conselheiro, a depender do estilo do freguês, atende a um público que não pára de chegar. Na manhã dessa segunda-feira, a devolução de fitas locadas para o feriado é o que mais acontece.

São quatro estabelecimentos dedicados à venda de produtos ligados ao sexo, estilo sex shop, em João Pessoa. Além da loja localizada na João Machado, encontramos a Tentação, Afrodite e a House Sex.

O comportamento – Júnior explica que o maior público do local é composto por mulheres, o que parece um dado surpreendente, uma vez que ele mesmo explica que pelo que conhece de outros mercados, pode considerar o pessoense muito conservador e resistente a freqüentar um sex shop. O preconceito e o falso moralismo, ainda segundo ele, “é muito grande aqui em João Pessoa”.

Eles trabalham basicamente com dois principais segmentos, que se comportam, em termos de público, de maneira distinta. A locação de fitas de vídeo (VHS) e DVDs, apresenta um público masculino de mais de 90%. Já em relação à loja, pode-se afirmar que 60% do seu público é feminino. E elas vêm sozinhas, acompanhadas de amigos ou amigas, ou com os maridos. Os homens costumam vir sozinhos, apenas um pequeno número vem acompanhado. Mas é comum o casal ir às compras e escolher juntos os artigos que mais lhe agradam.

Júnior conta que as mulheres, indiscutivelmente, se colocam mais à vontade diante do tipo de produtos que o local comercializa. Elas costumam perguntar livremente, pedem para ver o produto, pegam, tiram dúvidas, pedem explicações funcionais. Os homens mostram-se mais reservados.

O público - Ele consegue identificar, com a experiência, o comportamento de cada cliente. Até mesmo daqueles que costumam aparecer dizendo que procuram um artigo para um ‘amigo’. Se você pretende aparecer por lá com esse argumento, esqueça, ele identifica de cara esse tipo de desculpa, geralmente artifício usado pelos tímidos. Mas se você quer correr o risco de aparecer disfarçado, não se preocupe, se for o caso, ele faz o jogo do cliente para deixá-lo mais à vontade.

Curiosamente, um dos motivos que faz com que as pessoas tenham dificuldade de admitir que freqüentam esse tipo de local, é o medo de que as pessoas de sua convivência imaginem que estão procurando esse tipo de produto como um artifício para consertar um relacionamento fracassado.

A maioria ainda não consegue encarar os objetos eróticos e brinquedos para a prática do sexo, como um elemento lúdico na relação. Ou melhor, podem até achar, mas no fundo ainda se preocupam mais é com o que os outros vão pensar a seu respeito. Por isso a resistência e o comportamento ‘secreto’ da maioria dos clientes.

Formado em sua maioria por homens e mulheres com cerca de 30 ou 40 anos, profissionais liberais, funcionários públicos, gente comum.

Os preços – Você vai encontrar desde os produtos mais baratos, como preservativos e gel lubrificante, até uma boneca inflável que pode custar algo em torno de 600 reais. Júnior explica que a biotecnologia tem proporcionado cada vez mais o aperfeiçoamento dos produtos, cada vez mais saudáveis.

Acabou de ser lançada no mercado uma boneca que custa dois mil dólares, onde a pele é reprodução fiel da textura da pele humana, imitação perfeita. Cada vez mais os produtos antes feitos de plástico, e silicone, são desenvolvidos o mais próximo do real, causando menos atrito e maior conforto.

As pessoas que procuram os artigos vendidos em um sex shop, em sua maioria, sabem que se trata de um produto supérfluo, e por isso não costumam compará-los com outros artigos. A relação custo benefício é algo muito pessoal, nesse caso.

Você pode optar por comprar os seus artigos na Internet, o que garante privacidade total. Os sites costumam mostrar detalhes, e os preços ficam algo em torno de 10% a 15% mais caros que nas lojas, geralmente. Todos os sites demonstram uma preocupação grande em deixar o cliente tranqüilo em relação à entrega das mercadorias, garantindo a privacidade e tomando cuidado para que o carteiro ou o seu vizinho nem desconfiem do conteúdo das embalagens. O risco, nesse caso, é o mesmo que cabe a qualquer compra virtual.

Um kit básico, algo que pode ser chamado de ‘cesta básica’ do prazer, pode sair por R$ 44,30. Vamos ao conteúdo da cesta. Lubrificante térmico, R$ 11,20. Um dado para jogos eróticos, com posições sexuais, o mais simples, sai por R$ 8,20. Preservativos, você pode escolher um modelo especial, com textura, por R$ 3,50. Lubrificante, R$ 9,90. Gel para massagens, não sai por menos do que R$ 11,50. Está pronto o kit básico para apimentar qualquer relacionamento.

Mas se sua imaginação e o bolso permitirem, pode acrescentar à esse kit básico uma fantasia, onde a mais barata pode ser comprada por R$ 20,00. Para o dia-a-dia, a dica é a de empregada, muito procurada, ou então a clássica fantasia de enfermeira. Mas existem as sazonais, como a coelhinha, para o período da páscoa.

As histórias – Júnior, nosso anfitrião na Free Sex, lembra o caso de uma garota que escolheu uma fantasia com muito carinho, para usar com o noivo. A brincadeira acabou em tragédia, o rapaz teve um acesso de ciúme, e terminou o relacionamento. Ele suspeitou que a criatividade de sua companheira teria sido motivada por um outro homem que a teria estimulado a ter esse tipo de imaginação. Não se sabe se ela guardou a brincadeira para outro, mas é bem provável.

Uma jovem mãe, cerca de 30 anos, tentou a todo custo driblar o que diz o Juizado da Infância. A intenção era das melhores. Ela pretendia apresentar ao filho menor de idade, todas as opções em relação à prática do sexo. O argumento, que não convenceu o pessoal da loja, era de que preferia que ele conhecesse tudo ao seu lado, por considerar a maneira mais saudável de lidar com o assunto.

As histórias são as mais engraçadas, mas Júnior mostra-se muito discreto e reticente, ao narrar algumas delas, afinal, o lema do local é discrição, sempre. Mas impossível não deixar de rir com a história do casal que escolhia livremente os seus produtos até a entrada no local de uma conhecida. A pessoa em questão era uma colega de trabalho do marido. Eles pediram para se esconder, não queriam ser vistos por ela, com medo dos comentários caso ela contasse para alguém. Nem por um momento se deram conta de que o contrário também era possível.

Afinal, não se encontravam todos no mesmo barco, ou melhor, não estavam todos em uma loja especializada em sexo? Muitas são as razões para freqüentar, ou não, um local como esses. Mas infelizmente o que ainda costuma impedir o livre trânsito pelo local, parece ser uma certa dose do mais descartável moralismo.


Lilla Ferreira
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