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Marcio Aurelio

Era Bolsonaro é repugnante, diz diretor teatral que dribla Parkinson ao montar peças

"É muito 'disgusting' ter que passar, de novo, por isso que nós estamos passando", falou, usando a palavra em inglês para "repugnante".

Questionado sobre sua rotina de ensaios, mais limitada, ele diz "claro que não tenho a agilidade de antes, mas consegui ensaiar duas peças ao mesmo tempo". (Foto: Reprodução/Yahoo)

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aos 73 anos, há uma década com um diagnóstico positivo da doença de Parkinson, o diretor Marcio Aurelio estreou um espetáculo duas semanas atrás, "Lady X Macbeth", e agora vai estrear outro, "O Fazedor de Teatro".

Ele me recebeu, para uma conversa sobre sua trajetória até aqui, mais desenvolto do que o esperado, tomando agora um novo medicamento. Por cerca de duas horas, falou com voz baixa e corpo curvado sobre sua persistência no trabalho, afirmando que não vai parar.

Ao recordar sua formação que passou pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, no meio da ditadura, fez um único comentário sobre a regressão democrática do país. "É muito 'disgusting' ter que passar, de novo, por isso que nós estamos passando", falou, usando a palavra em inglês para "repugnante".

As duas peças refletem muito do que marca seu extenso currículo. Em "Lady X Macbeth", que codirigiu com Mara Borba, ele visita um clássico ao mesmo tempo em que joga luz sobre uma nova autora teatral, Marcia Zanelatto, com um texto que revê os personagens shakespearianos "pelo avesso".

Em "O Fazedor de Teatro", com assistência de Lígia Pereira, ele comemora os 30 anos de sua companhia Razões Inversas com uma encenação sobre o trabalho teatral, recorrendo à peça de Thomas Bernhard. O personagem principal é um ator, mas poderia ser o próprio Marcio Aurelio.

O diretor conta que atuou uma única vez, ainda adolescente em Piraju, no interior de São Paulo. "Tentei, uma pontinha. Bati na porta. 'O senhor é o oficial de Justiça?' Fiz sim com a cabeça. 'O senhor veio trazer uma intimação?' Fiz sim com a cabeça e entreguei o papel. Fechou a porta, e nunca mais."

Na cidade, começando a ajudar nas encenações, trabalhou já com textos como "Édipo Rei", de Sófocles, e "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. "Foi muito bom, comecei bem."

Mas acabou se formando em biblioteconomia, na Escola de Sociologia e Política, e partiu daí para a pós-gradução em informática no ITA, em São José dos Campos, no interior paulista, onde ouviu do coordenador, no final dos créditos, que devia "procurar outra coisa para fazer na vida".

Ele então se fixou em São Paulo, foi à leitura de uma peça de Timochenco Wehbi, na casa de uma amiga, e na conversa que se seguiu foi o único a defender o texto, com os argumentos que tinha então. "Mas a peça é ótima, vista do ponto de vista da progressão aritmética", teria falado, para risos dos artistas presentes.

Foi sua primeira direção profissional, "A Perseguição ou O Longo Caminho que Vai de Zero a Ene", em 1974. Naquele princípio, as influências eram Eugênio Kusnet, ator e diretor stanislavskiano de origem russa, com quem estudou, e a encenação carioca de "O Arquiteto e o Imperador da Assíria", com José Wilker.

Na sequência, partiu para a Europa para ver teatro, em Paris, Berlim, Amsterdã, num longo "on the road", como descreve. Em Roma, depois de fazer o curso de direção teatral na RAI, decidiu voltar, iniciando em 1977 uma extensa colaboração com um novo autor em São Paulo, Alcides Nogueira.

Eles se conheciam do teatro amador interiorano, um em Piraju, o outro em Botucatu, cidade próxima. O trabalho mais lembrado da dupla é "Lua de Cetim", "um espetáculo revolucionário na época", diz o diretor, "e uma peça de três atos, estruturada".

Montou também os clássicos "Édipo Rei" e "Hamlet", embora este não fosse tão rigoroso formalmente. "Não tinha as unidades como o 'Édipo', já tive que meter a mão", recorda.
O choque e a mudança vieram há 35 anos, com "Hamletmachine", do alemão Heiner Müller, a partir de Shakespeare. "Foi muito forte sair do 'Hamlet' e ir para o 'Hamletmachine', porque era muito louco."

Foi quando ele, acompanhando aquele momento do teatro ocidental, se voltou à chamada dramaturgia da cena. Diante de Müller, "eu falei 'se posso mostrar diferentes ideias quebradas, por que não posso quebrar a cara?'". Para tanto, iniciou uma parceria diferente.

"Eu quebrei a cara porque peguei como companheira a Marilena Ansaldi. Aparece uma coisa chamada performance. E aí não era mais o texto estruturado. Era a estruturação em diferentes poéticas."

A atriz e bailarina "se prestava muito a isso, ela se jogava". A realidade começou a entrar no palco, muitas vezes por acaso, tirada da vida da própria Ansaldi, de uma cadeira de balanço no cenário à ópera "Tristão e Isolda" na trilha.

A partir daí, Aurelio passou a dirigir de outra maneira, em que "o discurso se escrevia na cena". Na carreira acadêmica que manteve por décadas, na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade de São Paulo, foi o que culminou em sua tese de livre-docência, "O Encenador como Dramaturgo - Escrita Poética do Espetáculo".

Em paralelo, experimentou com as ideias de Bertolt Brecht, sobretudo teatro didático, em montagens como "Ricardo 2º", com Leonardo Medeiros. Seu contato com o autor e teórico alemão vinha dos anos 1980, inicialmente informal, em encontros que a amiga socióloga Ruth Brito Lemos fazia com outros brechtianos como José Antonio Pasta Júnior. "Ela armava debates em casa. Era outro tempo, as pessoas tinham outro tipo de convivência."

Quando começou a dar aulas na Unicamp, ele diz ter causado "estranheza", por ser um brechtiano entrando num terreno stanislavskiano. Foi lá, nas aulas, que achou os atores de sua companhia.

"Eram três rapazes e sete meninas, meio descompensado", descreve. "A companhia nasceu desse núcleo. 'Vamos fazer uma comédia? Temos que nos lançar.' Daí 'A Comédia dos Erros'. Tinha plataformas no palco, outra aqui, outra ali. A cena começava aqui, ia para lá. Era muito divertido."

A companhia mudou muitas vezes até "O Fazedor de Teatro". "Hoje estamos o Paulinho [Paulo Marcello], eu, tem a Ana Souto, mas é um vaivém", diz Aurelio. Uma atriz em particular foi por anos a face da Razões Inversas, Débora Duboc, que fez "Senhorita Else", entre outras.

"Ela chegou na Unicamp e, logo de cara, arrasou", lembra o professor. "Eu dava um curso de Brecht, que tinha como conclusão a concepção de uma cena, então eles ficavam muito meus amigos, por discutir projeto, tudo isso. A Débora, onde eu ia, ela ia."

Outro foi o autor Newton Moreno, que começou ator. "Era um aluno muito criativo, mas recluso. Ele tinha medo de mostrar. No final do curso, trouxe para mim o 'Agreste' e disse 'gostaria muito que você fizesse'. Aí foi surpresa para todo mundo. Em Berlim, foi um sucesso."

A companhia não o constrangeu de fazer outros trabalhos. Foi o caso de "Beijo no Asfalto" na Alemanha, adaptada de Nelson Rodrigues, com coreografia de Ismael Ivo. É até hoje o cartaz em destaque em sua biblioteca, num apartamento diante da praça Buenos Aires, no bairro de Higienópolis.

Uma das bailarinas no "Beijo" era Mara Borba, agora sua codiretora em "Lady X Macbeth", com os atores Yara de Novaes e Guilherme Leme Garcia.

Questionado sobre sua rotina de ensaios, mais limitada, ele diz "claro que não tenho a agilidade de antes, mas consegui ensaiar duas peças ao mesmo tempo". "Eu me viro, fico de cadeiras de rodas, dou as coordenadas e a Mara desenvolve. Agora a Lígia."
Quanto à próxima peça, diz que ainda não tem um texto na cabeça. "Trabalhei muito este ano. Vou dar um tempo." Mas, logo acrescenta, "enquanto puder fazer, eu vou fazer".


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