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David Lloyd: o futuro dos quadrinhos é no formato digital

Durante a coletiva de imprensa, David Lloyd respondeu a perguntas de sites, blogs e fãs no Auditório 1 do Espaço Cultural

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O ilustrador David Lloyd participou de uma coletiva de imprensa neste sábado (7), como parte do HQPB 2017, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa.

Durante a coletiva de imprensa, David Lloyd respondeu a perguntas de sites, blogs e fãs no Auditório 1 do Espaço Cultural. Famoso pela co-criação da graphic novel V de Vingança, que retrata um anarquista mascarado liderando uma rebelião contra um regime totalitário num futuro distópico, V de Vingança é lembrado hoje como uma das mais marcantes HQs de todos os tempos, cujo conteúdo perdura cada vez mais atual.

“As coisas estão ficando um pouco tenebrosas nos dias atuais. Certos grupos políticos, certos movimentos políticos radicais e certas estruturas estão se tornando muito parecidas com aquelas mostradas no mundo de V de Vingança. O principal modelo para V de Vingança era a Alemanha dos anos 30. Porque naquela época, a população enfrentava um desemprego em massa, e estavam todos desesperados por algum tipo de figura salvadora. E todos nós sabemos quem eles acabaram encontrando”, explicou David Lloyd. “Então toda a sociedade se tornou corrupta, porque eles sabiam o que Hitler estava fazendo, e deixaram ele fazer, porque ele estava criando uma certa ordem. Uma coisa parecida está acontecendo nos dias atuais na América: as pessoas estão desempregadas, desesperadas, e voltando sua atenção para pretensos salvadores que prometem por tudo em ordem.”

“Você tinha o fascismo em várias partes da Europa nos anos 30. Havia a Guerra Civil Espanhola, Mussolini na Itália, e todos esses ditadores tentando dominar o mundo. Agora, temos um eco desses dias nos dias atuais, com Marie La Pen ganhando força na França, movimentos extremistas na Alemanha, e na Inglaterra tivemos o Brexit, que foi um movimento separatista, anti social, anti comunidade. Eu espero que as coisas não se tornem ruins agora como elas se tornaram nos anos 30, mas nós podemos apenas ter esperança.”

David também falou sobre o futuro das HQs e como ele se sente a respeito do uso dos personagens criados por ele, seja em novas aparições no Universo DC, seja em adaptações cinematográficas ou para a TV.

Januncio Neto, organizador do HQPB; o tradutor e David Lloyd, ilustrador

Lloyd comentou a inserção dos personagens de graphic novels clássicas (como Watchmen) no universo mainstream da DC, deixando claro: “Eu não me importo. Nós fizemos essas histórias para a DC Comics, sob contrato, e essas histórias são deles e eles podem fazer com elas o que bem quiserem”. E disse mais: “Propriedade intelectual é propriedade. Você ficar com ela ou vendê-la, mas não há razão para achar ruim depois que vender.”

“O que quer que a DC faça com esses personagens, só cabe a ela própria decidir. É só dinheiro, cara. Eles não se importam com estética, é só uma coisa feita para gerar dinheiro. Se você se importa com a sua propriedade intelectual, não a venda. Eu, pessoalmente, não me importo com o que a DC fizer", disse Lloyd, rindo. Depois acrescentou: “Claro que iria importar se eles tivessem roubado a minha ideia, mas eles não fizeram isso. Eles compraram isso, se tornaram donos, e podem fazer com isso o que quiserem.”

Alan Moore, com quem Lloyd trabalhou na criação de V de Vingança, é famoso por reclamar da “deturpação” de suas criações nas mãos de outros autores. Ainda sobre Alan Moore, Lloyd explicou que os roteiros ultradetalhados do assim chamado Mago de Northampton atrapalhavam a ideia de que HQs deviam ser trabalhos colaborativos, feitos tanto pelo escritor quanto pelo ilustrador.

David Lloyd aproveitou para promover a importância das HQs digitais. “Eu estou na verdade publicando uma nova HQ cyberpunk na Aces Weekly, a revista digital, e é de longe o melhor jeito para levar os quadrinhos direto para as pessoas. A Internet é a melhor forma de produção e distribuição já inventada pela raça humana, então devíamos usar. Não há mais motivos para imprimir tudo em papel, colocar em caixotes, mandar por caminhões para distribuir em armazéns, que vão distribuir em bancas e livrarias para serem comprados e finalmente chegar ao leitor, que vai deixar na estante ocupando espaço, em vez de mandar direto pro leitor pelo cyberespaço. Estou tentando fazer isso do jeito que dê dinheiro, porque a maioria dos quadrinhos digitais é distribuído de graça, o que eu acho maluquice, ou são apenas republicações de material que já foi impresso no passado. Para mim, digital é o futuro. Mas ainda falta muito para fazer isso acontecer. O principal empecilho é que os fãs de HQs querem colecionar - eles querem uma coisa, e não importa o quanto expliquemos os benefícios, o preço barato, os baixos custos de produção e distribuição, eles ainda querem aquela coisa. Este é apenas um dos empecilhos, mas é o maior deles.”

David Lloyd comentou como foi trabalhar com Alan Moore, conhecido por tecer roteiros longos e ultradetalhistas: “Eu fui a primeira pessoa com quem Alan trabalhou em colaboração, e ele estava no ramo de quadrinhos há apenas dois anos (eu estava há mais tempo), e ele ainda estava aprendendo, eu acho. Mas, em certo ponto, ele começou a escrever demais, mas nós conversamos sobre isso, e uma coisa da época é que ele podia fazer o que ele bem quisesse. Ninguém chegava e dizia: 'não, eu não quero isso assim'. O pessoal aceitava. Então eu não recebi roteiros assim. Os roteiros que me foram entregues eram bastante convencionais, e foi muito bom trabalhar com ele. E eu devo dizer, se eu tivesse recebido roteiros exagerados, eu nunca teria trabalhado com ele.”

Depois disso, Lloyd falou sobre o início de sua carreira nos quadrinhos: “Minha primeira tentativa como profissional de quadrinhos foi como criador de tirinhas, na época em que eu trabalhava no ramo da publicidade, meu primeiro emprego. Criei personagens para os jornais europeus, tentei vendê-los, e até pus meu emprego em risco com isso, e acabei não conseguindo vender. Mas como eu estava decidido a não voltar mais à publicidade, comecei a pegar empregos de meio período e me aprimorar até conseguir vender meus quadrinhos para as pessoas. Ficou claro para mim que aquele fracasso no início foi porque eu não era bom o bastante. Eu continuei trabalhando a sério na minha arte e eventualmente um editor viu meu trabalho e gostou. Então basicamente é isso: dedicação.”

Comentando se faria alguma alteração na história de V de Vingança: “O que há de marcante na história original é que ela não precisa de mudança. Ela continua atual, hoje mais do que há dez anos atrás. Se fosse pra mudar alguma coisa, seriam os desenhos iniciais, que demoraram a evoluir.”

Lloyd também aproveitou para aconselhar estudantes com vontade de começar uma carreira nos quadrinhos: “Você tem que trabalhar duro para ser o melhor que puder, mas depende de em que área dos quadrinhos você quer atuar. Se você quer atuar na indústria, se prepare para a alta competitividade: tem muito mais gente hoje tentando fazer quadrinhos, e as vendas vem caindo de um modo geral. Então para entrar nesse jogo, você tem que ser um dos melhores. Mas se você apenas aprecia fazer quadrinhos e contar histórias, você só precisa trabalhar duro. Eu poderia falar sobre o assunto em vários níveis, incluindo a importância do quadrinho digital, porque o único jeito que você pode fazer dinheiro com quadrinhos é através da versão impressa. Mas se nós mudarmos o mercado, muitas pessoas vão comprar quadrinhos originais digitais. Atualmente, é preciso vender um número muito alto de quadrinhos para que não haja prejuízo, devido aos custos com distribuição, produção e acabamento. Tirando isso da equação, pode haver uma maior diversidade de histórias sendo contadas, e um contato direto pelo computador entre o criador e o leitor. E aí você consegue fazer dinheiro com isso. O problema é que os leitores de HQs ainda querem ter o objeto em mãos! Se nós pudermos fazê-los se livrar desse hábito, e investir em quadrinhos digitais originais, nós podemos construir um mercado para isso.”



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